
O caso Super Xandão é um exemplo perfeito de como a Internet está sendo moldada para extrair prazer do infortúnio alheio, mesmo quando isso é injusto. Aqui está uma olhada neste fenômeno desconcertante.
Como alguém que frequenta a Internet há mais de dez anos, posso afirmar que existe um tipo de alvo que as pessoas adoram derrubar: a pessoa que defende uma convicção. Não é preciso ser santo. Basta declarar, em algum momento, que o certo e o errado existem. Essas pessoas carregam uma dívida e, para aqueles que levam vidas desordenadas, testemunhar a queda delas é a realização de um sonho.
Essa é precisamente a situação envolvendo a streamer conhecida como Bianquinha e o streamer Super Xandão. Em uma transmissão recente, Bianca acusou Xandão de trair a esposa e afirmou possuir registros de conversas privadas entre os dois que comprovariam a infidelidade. Durante uma ligação posterior gravada na transmissão de Bianquinha, Xandão e sua esposa, Jaqueline, revelaram a farsa, levando Bianca a admitir que havia sido enganada por alguém que se passava por Xandão.
Este caso foi impulsionado quase inteiramente por sites e canais de comentários que prosperam com conflitos entre criadores de conteúdo. Não há hipocrisia nisso, uma vez que eles são transparentes quanto ao que fazem. No entanto, há um impacto. Hoje, existe um ecossistema com interesse econômico direto em garantir que tais disputas não terminem e que evidências (até falsas) sejam divulgadas, independentemente do custo para terceiros.
Como este site não é sobre fofocas, meu resumo deste caso termina aqui. O que vou abordar, na verdade, é um efeito interessante e claramente observável em toda essa confusão: o escândalo que mais vende não é aquele que envolve o vilão declarado, mas sim o que envolve a figura disciplinada.
O Prazer de ver o Disciplinado Cair
Até pouco tempo atrás, falsificar áudio exigia estúdio, habilidade técnica e tempo. Hoje, IAs de clonagem de voz conseguem reconstruir o timbre de alguém a partir de apenas alguns segundos de gravação, e qualquer pessoa que faça uma transmissão ao vivo pública fornece horas de material gratuito. Um print falso de conversa pode ser criado em um editor de imagens em cinco minutos, e números de telefone e fotos podem ser gerados.
Em outras palavras, justamente no momento da história em que fabricar provas se tornou algo trivial, o público decidiu que a prova é um mero detalhe. O resultado é perverso, pois a “prova” mais convincente hoje em dia é, justamente, a mais fácil de falsificar.
No entanto, a tecnologia é apenas um fator nesse fenômeno. O gatilho é, primordialmente, psicológico. O antropólogo René Girard passou a vida estudando um padrão que se repete em todas as culturas conhecidas: quando a tensão coletiva chega ao limite, o grupo elege uma vítima (mesmo que seja inocente), descarrega tudo sobre ela e sai da experiência estranhamente unido e em paz. Ele chamou isso de mecanismo do bode expiatório.
Os linchamentos e execuções públicas da Europa do século XV transformaram-se na “cultura do cancelamento” online (termo que detesto), com a diferença de que o alvo é permanentemente marcado aos olhos do público pelas acusações, em vez de simplesmente morrer de uma vez por todas.
Some-se a isso o que dois filósofos americanos, Justin Tosi e Brandon Warmke, batizaram de “moral grandstanding”: o hábito de usar a indignação pública menos para corrigir uma injustiça e mais para exibir a própria virtude. É impressionante notar que, na grande maioria das vezes, o “cancelamento” parte de pessoas que buscam desesperadamente se posicionar falsamente como cruzados da moralidade.
Ninguém Está a Salvo
Na base de tudo isso, existe um equívoco estrutural conhecido como relação parassocial, que é um vínculo unilateral que se forma quando alguém acompanha outra pessoa por centenas de horas na tela. Embora você sinta uma certa intimidade, a outra pessoa sequer sabe que você existe.
Isso leva ao erro de confundir o personagem com a pessoa real. Alguém que passa cinco horas por dia sendo provocado e transformado em meme constrói, intencionalmente, uma persona pública exagerada, pois é o exagero que mantém o público engajado. Julgar a vida privada dessa pessoa com base nessa persona é como processar um ator pelas ações de seu vilão.
Consequentemente, um público que se sente excessivamente íntimo passa a acreditar que tem o direito de opinar sobre o casamento e as finanças de outra pessoa, como se as horas gastas assistindo lhe conferissem algum tipo de autoridade.
Além disso, a presunção de inocência deixou de ser apenas um princípio jurídico de interesse restrito a advogados e se tornou parte da nossa cultura. Ela existe porque a humanidade acabou percebendo que fazer julgamentos no calor do momento leva à destruição em série de vidas inocentes, o que motivou a criação de uma regra para contrabalançar esse próprio instinto.
Essa norma está sendo desmontada em tempo real em um ambiente onde qualquer um pode julgar, mas aqueles que são realmente culpados jamais são responsabilizados.
Observe como ninguém pede desculpas quando a história cai por terra. As acusações são apagadas, e o caminho fica livre para que o próximo alvo seja cancelado. Isso cria um mundo onde uma acusação tem mais peso do que as provas, ninguém está a salvo e basta um único print feito no momento certo.
Conclusão
Ao longo da história da humanidade, o prazer derivado de ver alguém cair tem sido um traço psicológico persistente. Nossos ancestrais viviam em grupos pequenos e estritamente hierárquicos, onde o acesso a alimentos, proteção e oportunidades reprodutivas dependia do status relativo de cada um. Nesse ambiente, a queda de alguém acima de você representava, literalmente, uma promoção. Esse prazer servia como um sinal adaptativo indicando que sua posição havia melhorado.
O caso Super Xandão desencadeia uma variante ainda mais potente desse mecanismo: a queda de um indivíduo que se apresenta como disciplinado e cristão. Como discutido neste artigo, condenar um hipócrita com mais severidade do que um transgressor confesso é uma resposta psicológica profundamente arraigada. Isso explica por que sua acusadora usou o termo “bastião da moralidade” durante uma de suas transmissões ao vivo. O instinto de matilha reage com mais força contra o que é percebido como uma postura fingida.
No entanto, o mesmo mecanismo que leva o público a querer ver a queda de um moralista também o induz a aceitar, sem senso crítico, qualquer material que confirme essa queda. É precisamente aí que uma acusação não comprovada se dissemina com eficácia e todo um ecossistema de canais aprendeu a operar na lacuna entre a alegação e a verificação, pois é nesse espaço que se encontra o público.
Como era de se esperar, o caso Super Xandão terminou com a acusadora desacreditada e o acusado inocentado. Em suma, todo o episódio gerou uma sensação de déjà vu, remetendo a notícias sobre mulheres idosas que acreditam estar em relacionamentos virtuais com empresários ricos.
Não esqueça: Inteligência e Fé!

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